Cecília Amado apresenta os seus capitães

Cecília nasceu em uma família de contadores de histórias. Quando grande, já sabia o que queria, contar uma de tantas histórias do seu avô, Jorge Amado, o nosso Jorge. Não tinha outro, Cecília leu Capitães da Areia como muitos de nós, na adolescência, e era essa a história que ela queria contar.

Capitães da Areia fala dos meninos abandonados nas ruas da Bahia. Quando Jorge Amando escreveu a história desses meninos, com 24 anos, seu livro foi queimado em praça pública, taxado como subversivo. Hoje, os meninos se multiplicaram, são mais de 6 milhões de exemplares vendidos por todo o mundo.

No tempo em que vivia com o avô, Cecília descobriu um Jorge que tinha um olhar mais humano do que político, que era apaixonado pelos seus personagens. De fato, ele “viveu” com esses personagens.

E ela tinha essa obrigação, ela tinha que conhecer esses capitães também, porém, mais do que obrigação, ela tinha um desejo de louco de saber como eles viviam.  Queria casar com Pedro Bala, o “símbolo da liberdade que todo adolescente que ser”.

Exatamente o que Cecília traz para o TEDxPelourinho, a sua história com esses capitães.

Foi com a ajuda do Projeto Axé, que trabalha arte e educação com as crianças mais excluídas da Bahia, lá na Conceição da Praia, que ela, assistindo a turma de dança, viu o que tanto procurava.

Tinha um menino que sonhava em ser Pedro Bala, por isso, chamava à atenção de Cecília. Certo dia, durante as atividades em grupo, o mesmo menino, que não conseguia se encaixar entre tantos outros meninos, partiu para a violência com um pedaço de madeira. Ninguém se machucou, mas era como se ele falasse, não com as palavras, mas com o seu grito: eu sou, eu estou aqui, venha me buscar. A presença de Cecília foi a ponta de esperança para ele.

Só que não adiantava ser o Pedro Bala, os escolhidos tinham que saber interpretar o Pedro Bala.

25 organizações que trabalham com arte educação em Salvador estiveram ao seu lado na busca dos personagens que seu avô conviveu.

Muita coisa mudou desde de 1936, quando Jorge Amado escreveu o livro, muito por conta da violência e do crack, definido como uma arma de extermínio por Cecília.

E isso tudo estava presente na vida dos 1.200 jovens entrevistados, de onde saíram os 700 selecionados e os 90 finalistas, que foram levados por ela para oficinas de cinema e capoeira.

No processo de seleção, Cecília perguntava qual era o sonho desses meninos, as respostas eram as mais diversas: conhecer meu pai, dar uma casa pra minha mãe, ouvir minha mãe dizer eu te amo pelo menos uma vez, querer aparecer, querer ser importante, querer ser alguém.

Era difícil, mas Cecília estava fazendo um filme, tinha que escolher. E assim chegou aos 12 participantes do elenco principal.

9 semanas ao longo de 9 meses, a gestação de um filme.

Cecília deixa a reflexão e apenas um pedido:

Como vocês podem fazer o mínimo, de forma simples, para tirar as crianças que precisam dessa invisibilidade? Quando vocês estiveram na rua e forem abordados por uma criança, deixem de ter medo, perguntem: qual o seu nome? É o primeiro passo para ela ser alguém.

Cecília nos convida a olhar para os nossos “pequenininhos”, como ela diz, que estão pelas ruas querendo apenas uma coisa: sobreviver.

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O sorriso é franco e o olhar quase sereno. Carioca, nascida em 1976, a cineasta Cecília Amado, para seu primeiro longa-metragem, “Capitães da Areia” – baseado no romance homônimo de Jorge Amado – foi buscar seus atores em oficinas culturais de ONGs que atuam na periferia soteropolitana, como o Olodum, o Ilê Aiyê e o Projeto Axé. Ela acredita que é possível tirar as crianças da invisibilidade. E ela foi lá com o seu trabalho e o fez.

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